• MAX FERCONDINI

DA MARTINICA PARA BONAIRE - DIÁRIO 01

Atualizado: 24 de Jul de 2019


De volta ao veleiro ANANTA

Diário de Bordo - DIA 01

(10 e 11/06/2019)


Posição: 14°40′N 61°00′W (Martinica)

Distância Total: 520 nm (830 km)

Milhas navegadas: 91 nm (147 km)

Milhas para chegar: 429 nm (683 km)


Fazia mais de 5 meses que não me encontrava com Alexandre e Mirella, desde a última vez no final do ano passado (2018). Portanto, nossa expectativa era grande pelo reencontro e pela nova empreitada que iríamos compartilhar. Uma vez que o casal de amigos deixou o barco no Caribe, logo após cruzarmos o Atlântico, era tempo de voltar ao paraíso para vermos como as coisas estavam com a ANANTA (nome do veleiro deles) e, principalmente, levar a o barco para um porto que fosse mais abrigado e fora da zona de furacões do Caribe.

O convite para que eu os acompanhasse novamente a bordo foi feito com mais ou menos uns 2 meses de antecedência, quando eu ainda estava trabalhando em Portugal em meus projetos. Mesmo sem ter certeza da minha disponibilidade, aceitei a oferta e me coloquei à disposição para qualquer trabalho que necessitassem na próxima travessia. Na verdade, esse convite viria bem a calhar, já que eu também estava programando umas breves férias no mês de junho. Com a proximidade da data de partida para o Caribe, combinamos de nos encontrarmos no aeroporto de Paris-Orly, na França. Os dois vinham da Holanda e eu de Lisboa, onde a mais de um ano joguei âncora e não consigo sair. Não que o impedimento seja por algum motivo ruim, mas, pelo contrário, a capital lusitana parece ter me conquistado de verdade.

Brindando o reencontro já na Martinica

Voltando ao encontro marcado em Paris, combinamos de nos "acharmos" na entrada do portão D19 do terminal 3, já próximo da hora do embarque. A minha alegria de vê-los era enorme e a mesma nostalgia que sentia, pude ver estampado em seus rostos. Alexandre, de longe, abriu os braços aguardando que eu caminhasse até onde eles haviam deixado as malas, enquanto Mirella esperava que os meninos se saudassem. Após o longo e amistoso abraço no Alexandre, foi a vez de matar a saudade e cumprimentar minha querida amiga. Os laços afetivos que criamos desde que cruzamos o Atlântico, ainda estavam presentes em nossos corações. Soltamos uma boa e cúmplice risada entre amigos após compartilharmos no piscar de 1 segundo todas as memórias que tínhamos dos 21 dias de navegação que fizemos pelo Atlântico.


Embarcamos para a Martinica naquele voo e viemos conversando sobre todos os afazeres que teríamos no barco quando chegássemos.

Começamos a travessia deixando a Martinica às 19h do dia 10 de julho (2019) com as melhores condições de mar e vento que podíamos esperar. A noite estava linda com uma lua crescente no céu bem no rumo 265 graus, exatamente na nossa proa para Bonaire e Curaçao. Logo que saímos eu fui deitar para estar descansado para o meu turno que começou a meia noite. Levantei as 23h como combinamos. Coloquei no celular para tocar a playlist de quando cruzei o Atlântico no ano passado. Tocava a mesma seleção de músicas do Chico Buarque, Dire Straits, Bob Dylan e outros que gosto muito.

Começamos a navegação assistidos pelo motor e seguimos por toda a noite assim. Abrimos a vela grande para aproveitar um pouco o vento que estava soprando de leste. O Alexandre preferiu rodar algumas horas no motor depois de tanto tempo que o barco ficou parado na marina. Na popa do barco pude observar as luzes de Martinica mais ou menos até às 2h da manhã. Agora já não temos mais referência alguma de terra. Estamos novamente sozinhos no mar. Não tem praticamente nenhuma nuvem no céu e as estrelas estão lindas. Um peixe voador saltou para o deck do barco e ficou se debatendo até cair novamente na água. O mar de noite é incrivelmente belo e a temperatura da água está em 28 graus Celsius, como mostra o termômetro.


A lua se pôs cedo na noite e deixou ainda mais evidente as constelações acima de nós. Mirella e Alexandre foram deitar às 12h30 e me deixaram no cockpit monitorando a navegação. Tomei um café para me manter acordado e de madrugada fui buscar um pão para comer. Não havia jantado e fiquei com fome. Como o barco está no piloto automático fica fácil descer para a cozinha para preparar qualquer coisa para comer. Estamos fazendo uma média de 6 nós de velocidade, o que equivale a uns 11 km/h. Veleiros são lentos, mas têm a capacidade de nos transportar para longe! Atrás de nós uma esteira de plâncton fluorescente se formou conforme cortávamos as ondas. No meio dessa primeira noite pude avistar algumas estrelas cadentes. Há muito tempo que só agradeço, sem fazer qualquer novo pedido.


Segui navegando até às 5h da manhã quando fui chamar o Alexandre para a troca de turno. Ele levantou ainda cansado, mas foi para o cockpit. Como eu ainda estava bem resolvi prepara a nossa linda de pesca, pois geralmente os peixes são fisgados nas primeiras horas do dia. Com a isca na água fui deitar. Já eram 6h da manhã quando me estiquei na cama. O balanço do barco dificulta os primeiros minutos deitado, mas depois embala o sono.

Acordei ás 9h15 quando a Mirella gritou que talvez um peixe teria fisgado a isca. Apesar de estar sonhando, levantei em um só pulo. Afinal, pescar é uma das minhas maiores preocupações a bordo, pois sou eu quem vai limpar e preparar o peixe para o almoço. Infelizmente o chamado foi alarme falso... Recolhi a isca vazia e joguei novamente no mar no intento de aguardar um nova oportunidade. Como já estava desperto, não tive vontade de voltar para a cama e passei as próximas horas da manhã fazendo companhia para a Mirella. Ainda estamos navegando com auxílio do motor, apesar das velas estarem postas. Alexandre eu abrimos a genoa, vela da frente, durante a troca de turno às 5h30 da manhã. E assim seguimos. Os ventos estão entorno de 15 nós, o que não é muito. Então decidimos navegar assistidos pela "vela de aço", como chamamos o hélice, até que os ventos começassem a soprar mais. Passamos da metade do primeiro dia de navegação. Comecei então a me preocupar com o que eu faria para o almoço. Se não pescássemos nada, teria que usar alguma proteína animal que compramos no mercado. Tínhamos atum, carne e salsichas... Tudo processado e enlatado para durar mais. Como está MUITO calor no barco, não sei se teremos apetite para comer algo quente.


Exatamente ao meio dia, eu tomei a decisão de descer para a cozinha e fiz uma bela pasta de atum com cebola, milho, maionese e várias especiarias para dar sabor. Acrescentei pimenta do reino e um molho picante que ainda tinha sobrado da travessia do Atlântico. Alexandre desligou o motor do barco para almoçarmos ao som do vento e das ondas batendo no casco. Às 13h a comida estava servida, com direito a Coca-Cola gelada. Um luxo a bordo! Quando terminamos de almoçar, percebemos que o vento estava rondando, ou seja, mudando a direção. Para continuarmos navegando no rumo 255 graus precisamos dar o jaibe, que nada mais é que ajustar as velas para corrigir o rumo do barco. Fizemos essa manobra às 13h40 e voltamos a ligar o motor, porque a intensidade do vento baixou de 18 para 10 nós. Às 14h eu tomei um banho de balde na popa do barco, enquanto o Alexandre limpava a isca da linha de pesca que tinha se agarrado em algumas algas, conforme o veleiro deslizava pela superfície da água. Após o meu banho, me despedi dos dois no cockpit e entrei para a minha cabine para descansar novamente para o turno da noite. Dormi até às 17h como queria. Entre um cochilo e outro, vi o Alexandre trabalhando as velas e depois ele me explicou que havia um petroleiro na nossa rota e que teve desviar o caminho para não entrarmos na rota de colisão. Como estamos perto da Venezuela é muito comum avistar esse tipo de barco.

Às 17h30, eu resolvi tomar um novo banho para baixar a temperatura do corpo. Algumas nuvens carregadas traziam chuva e, água doce da chuva, foi tudo o que eu precisava para me refrescar. Me molhei com a água do mar que recolhi com a ajuda de um balde, passei o sabonete no corpo e esperei, pacientemente, a precipitação que lavou a alma. Que pôr do sol maravilho assistimos nesse final de tarde!

Às 18h coloquei um farfalle na panela para o jantar. A ideia era usar a pasta de atum que sobrou do almoço como molho. Nesse meio tempo me dividi entre o pôr do sol e as panelas. Quando voltei para dentro do barco havia fogo a bordo! Uma vasilha de plástico caiu sobre o fogão e levantou uma pequena labareda. O cheiro de plástico queimado assustou a tripulação que tomava banho de chuva alegremente, mas o perigo estava controlado. Apaguei o incêndio e limpei a sujeira que meu descuido causou. Segui cozinhando tranquilamente. O jantar só saiu as 18h40, pois pedi para esperarmos a massa esfriar. Abrimos um vinho rosé para acompanhar o jantar e comemos com satisfação após o primeiro dia de navegação.


A noite chegou no ritmo do samba que tocava na caixa de som, enquanto nossos corações agradeciam ao universo pela linda oportunidade que estávamos tendo uma vez mais a bordo do veleiro ANANTA. Que dia! Servi a massa com o vinho. Ficamos ébrios e alegres! Depois do jantar fui fazer um café para aguentar o turno da noite. Meu expediente vai até às 5h da manhã, uma vez mais. Gosto de navegar durante a noite, quando o mundo está dormindo e eu só tenho os meus pensamentos para refletir.

Posição: 13°85′N 62°73′W (Singradura: 91 nm)

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© 2019 por Max Fercondini

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