• MAX FERCONDINI

Diário de Bordo - 02


Diário de bordo - Dia 02 (26/11/2018)


Posição: 26 38 N 016 31 W Milhas navegadas: 102 nm Milhas para chegar: 2595 nm Velocidade média para o destino: 4.7 nós


A manhã acordou nublada, contrastando com o dia e a noite anterior. Alexandre foi me chamar uma hora antes do combinado, pois precisava de ajuda para subir ao mastro para trocar um cabo que se enrolou no topo. Subi meu amigo. Ele ficou pendurado por uns 20 minutos e quando desceu foi direto vomitar, pois tinha tido a sensação de ter passado por uma montanha russa com o balanço do veleiro. Ele me pediu para levar o barco enquanto se recuperava do enjoo. Mirella estava ao meu lado, mas não se sentia totalmente bem. Sentia-se ainda um pouco enjoada. Desci para pegar umas tâmaras, pistache e manga desidratada, que foram meu café da manhã. O silêncio no barco era total. Os dois descansando e eu escutando as ondas, que por vezes faziam sons que eu julgava serem humanos. Parecia que eu ouvia a tosse de uma senhora com o quebrar de uma onda. Outras vezes ouvia o bufar de insatisfação de um senhor, vindo do cano de saída de água do barco. Quando foi 2h da tarde, resolvi preparar um arroz com cebola e alho, ovos e carne enlatada. Mirella se esforçou para se alimentar, enquanto o Alexandre colocava os painéis solares na proa do barco. Essa não me pareceu uma boa ideia, pois ele ainda não estava recuperado do enjoo com a subida no mastro. Assim, esperou mais tempo para comer. O enjoo dele não passou e os dois fizeram companhia um para o outro no cockpit, enquanto eu fui dormir por 4h na minha cabine. Eu sabia que mais uma vez ia perder o pôr do sol, mas precisava me preparar para o turno da noite, que eu me sentia melhor para fazer. Quando acordei, a noite estava linda e os dois admirando a beleza do céu completamente estrelado. A lua só veio a nascer às 21h15 e, durante esse tempo, ficamos encantados com as estrelas no céu e um rastro de plâncton fluorescente que ficava para trás, junto com a espuma do barco em movimento. Perguntei a Mirella se eles tinham visto muitas estrelas cadentes enquanto eu dormia e ela disse que não muitas, mas algumas. Ficamos conversando para o tempo passar e chegou minha vez de ver uma estrela cortar o céu escuro. Mirella me perguntou se eu tinha feito um desejo e eu disse que não precisava desejar mais nada, só agradecer. Alexandre foi deitar no chão do barco, o lugar mais estável e confortável para quem não está se sentindo bem. Então eu comecei o meu turno de navegação. Estávamos os três levando o barco nas pontas dos dedos. Ligávamos o piloto automático muito raramente, pois precisávamos economizar energia durante a noite quando não tínhamos a luz do sol para carregar as baterias. Notamos que o piloto automático estava com algum problema, pois perdia facilmente o rumo com as rajadas e a ondulação do mar. Decidimos não mais confiar no piloto e, a partir de agora, toda a navegação seria feita por um de nós no leme. Algo que se mostraria bastante estressante e que demandaria um esforço maior nos turnos a seguir. Eu fui lavar uma panela na popa do barco para utilizá-la para esquentar uma água para o meu café e a Mirella me fez companhia por algumas horas antes de ir se deitar. Após alguns minutos ela foi para baixo com o Alexandre. Para manter o rumo de navegação eu já não precisava olhar para a bússola que indicava para onde estávamos seguindo. Com tantas estrelas no céu, eu me guiava por elas, encaixando as três Marias em perspectiva com a estrutura de metal que sustenta o radar do barco. Era como se eu estivesse voando em ala com elas, como fazia no Brasil quando voava em formação com meus amigos. A madrugada chegou e os dois vieram para fora algumas vezes para tomar um ar fresco no rosto. O Alexandre precisou vomitar e me perguntou o que ele deveria fazer. Eu disse que seria bom ele tentar descansar o máximo que conseguisse e que, no dia seguinte, se os dois ainda não estivessem bem, nós iríamos entrar na água amarrados por um cabo para que a água fria do mar desse uma acordada no corpo. Se fosse necessário diminuiríamos a velocidade do barco para ficar mais confortável para o mergulho. Mirella continuou mal e me pediu para apertar alguns pontos de sua mão que estariam relacionados com o equilíbrio e enjoo. Ela estava tremendo de frio e eu fui buscar um cobertor em sua cabine para aquecê-la. Esfreguei minhas mãos sobre a coberta para gerar calor e ela se sentiu melhor. Precisei dobrar o meu turno de navegação por conta dos dois que não estavam bem. Antes de ir dormir às 5h30 da manhã pude observar Vênus que despontava no céu e se diferenciava das demais estrelas por seu tamanho e pelo fato da sua luz não piscar.




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© 2019 por Max Fercondini

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