• MAX FERCONDINI

Diário de Bordo - 16


Na roda de leme, conduzindo o barco

Diário de Bordo - Dia 16

(10/12/2018)


Posição: 14 14 N 047 14 W

Milhas navegadas: 148 nm

Milhas para chegar: 798 nm

Velocidade média para o destino: 5.9 nós


Acordei às 9h15 da manhã com o forte movimento do barco e um barulho interno que até então eu não tinha ouvido. O som parecia como um peixe voador se debatendo no chão da sala do barco desesperado para sair. Eu não tinha dormido nem 3h. Estava exausto e um pouco irritado com a interrupção do meu sono depois de tantas horas navegando. Fui encontrar o Alexandre no cockpit e ele já estava acompanhado da Mirella.


Alexandre sugeriu de darmos o JAIBE, pois os ventos mudaram um pouco nessas últimas horas e seria melhor aumentarmos um pouco mais o ângulo que estávamos navegando. Já estávamos muito próximos do paralelo de mesma latitude que Saint Lucia no Caribe, mas desviar um pouco para cima não nos atrasaria. Pelo contrário, ia ajudar o barco navegar mais junto com o SWELL das ondas que vinham de noroeste. A previsão era para o mar crescer ainda mais nas próximas horas. Apesar de eu estar morrendo de sono, fui ajudar meu amigo a dar o JAIBE. Mirella ficou no leme e fez um ótimo trabalho, corrigindo a rota e mantendo a proa. Após fazermos a manobra com perfeição de sincronismo, eu fui deitar novamente para tentar descansar um pouco mais. Os dois ficaram juntos navegando.


Acordei novamente às 13:30, mais descansado, mas um pouco incomodado com tantas ondas que me faziam rolar de um lado para o outro na cama da sala. Nós ainda temos 5 dias de navegação e algumas horas pela frente e o mar mexido faz o humor variar muito. O maior desafio até aqui tem sido o psicológico. Estamos indo bem, mas não vemos a hora de chegar.


Perguntei se o casal tinha almoçado e eles disseram que não, apesar do Alexandre ter comido um pouco do feijão que eu tinha feito no dia anterior. Fui esquentar o restinho desse feijão para comer de café da manhã, pois eu estava com fome. Comida do dia anterior é sempre muito boa... Recomendei que se alguém estivesse com fome, que comesse algum SNACK qualquer para ir tapeando o apetite. Com esse mar mexido e meu humor balançado eu não estava muito disposto para cozinhar. Como todas as refeições que fizemos a bordo até aqui foram boas, pensei que podíamos ter um almoço mais "relaxado" por hoje. Todos concordaram e Alexandre pegou umas batatinhas fritas de saquinho para beliscarmos e depois ainda trouxe pêssegos e abacaxi em calda com doce de leite de "sobremesa". Definitivamente, o doce ajudou a melhorar o meu humor.


Mirella assumiu o leme às 14h45 para não sobrecarregar o piloto automático com tanto esforço contra as ondas. Alexandre foi descansar e eu iniciei o ritual do quinto banho da viagem até aqui. Lavar-se com o barco em movimento é sempre uma função demorada, pois temos que retirar água salgado do mar com um balde. Água doce só usamos mesmo para higienizar as partes íntimas e o cabelo.


Tomando banho com água salgada na proa do veleiro

Quando terminei meu banho, foi a vez da Mirella e eu assumi o leme até o Alexandre acordar, algumas horas depois. Assistimos ao pôr do sol juntos e eu comecei a me organizar para fazer o jantar. Como havíamos comido pouca coisa substanciosa no almoço, resolvi fazer um bolo de carne recheado com pimentões e queijo. Alexandre se adiantou para lavar as panelas que eu ia usar e Mirella deu conta do restante da louça suja da pia. Às 21h30 eu estava com a mão na massa. Ou melhor, na carne. De tempero, usei cebola, o próprio pimentão que também foi para o recheio, sal e um molho balsâmico com teriyaki. Levei a travessa ao forno por 50 minutos, sem deixar de regar a carne com o molho a cada 10 minutos. Às 22h40 o jantar estava servido.


Alexandre jantou segurando o leme, já que o mar estava muito mexido. Após comermos, eu assumi o comando do barco e o Alexandre reduziu a área vélica da genoa para não passarmos por nenhum susto durante a navegação noturna, uma vez que as rajadas chegavam aos 28 nós. À 1h45 liguei o motor para dar uma carga na bateria. Continuei navegando e observando as estrelas quando, de súbito, uma onda gigante invadiu o cockpit pela popa e me deu um banho inesperado. Levei um baita susto, pois não estava esperando por aquilo. Ensopado, precisei trocar de roupa, pois, dessa vez, eu não estava vestido com minha roupa impermeável...


Alexandre apareceu às 3h da manhã no cockpit como havíamos combinado e eu disse que aguentava mais uma hora no turno. Antes dele ir deitar, me pediu para girar o motor por uma hora, mas, se o motor começasse a falhar, era para eu desligar, pois o combustível estava para acabar e não podíamos deixar que ar entrasse na linha do motor. No tempo de 45 minutos após girarmos as máquinas, o motor deu seus primeiros engasgos, indicando que o tanque estava baixo. Se eu não desligasse como combinamos, ia seguramente ia entrar ar na linha de combustível e depois teríamos que sangrar a linha do diesel para trazê-lo à vida novamente.


Alexandre voltou ao cockpit às 4h10 e iniciamos a troca do turno. Avisei do que tinha se passado com o motor e combinamos que, no dia seguinte, encheríamos o tanque utilizando o reservatório de 4 garrafas de 20 litros (cada) que trouxemos para reabastecer no meio do oceano. Fui deitar às 4h35 da manhã.


Posição: 14 14 N 047 14 W

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© 2019 por Max Fercondini

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