• MAX FERCONDINI

Diário de Bordo - 18



Diário de Bordo - Dia 18

(12/12/2018)


Posição: 14 30 N 052 06 W

Milhas navegadas: 134 nm

Milhas para chegar: 515 nm

Velocidade média para o destino: 5.6 nós


Meu despertador tocou às 4h da manhã como eu havia programado, mas se não fosse a Mirella me acordar, eu não teria levantado. Estava em um sono tão profundo, que tudo o que eu menos queria era levantar. Mas eu tinha que assumir meu turno na madrugada e, por isso, fui ao cockpit ver como o Alexandre estava. Ele ficou muitas horas na roda de leme e também precisava descansar. Pedi a ele que aguardasse eu esquentar o jantar da noite anterior para me alimentar. Como eu não tinha comido, estava faminto. Em seguida, preparei um café frio com leite condensado para dar mais um estímulo. Como de costume, antes do Alexandre me passar o barco, conversamos sobre como estavam as condições e o rumo que seria mais confortável seguir, considerando os ventos e a ondulação. Trocamos as mãos no leme e o Alexandre foi jantar. Meu objetivo era levar o barco até às 8h da manhã, quando a Mirella acordasse para assumir a navegação.


Navegando nos primeiros momentos do dia

Com muita dificuldade, eu lutava para me manter acordado. Os fracos ventos empurravam lentamente o veleiro e a sensação de pouco deslocamento era como um entediante sonífero. Como já estamos a muitos dias no mar, o cansaço bate de uma forma muito intensa e eu contava no relógio, os minutos para terminar meu expediente no cockpit. Os ponteiros encontraram a marca das 8 horas no meu relógio, mas a Mirella não se levantou. Esperei 10 minutos e desisti de lutar contra o sono. Liguei o piloto automático e deitei ali mesmo de modo que eu pudesse monitorar os instrumentos que indicavam a direção dos ventos e o rumo que estávamos mantendo. Mirella subiu ao cockpit às 9h da manhã, desligou o piloto e assumiu o leme. Eu permaneci alguns minutos com ela ali e, como estava exausto, fui deitar na sala. Dormi até às 12h15, quando, mais descansado, levantei e fui fazer um café e torradas para mim e para a Mirella que estava firme no leme. Alexandre acordou às 12h45, mas ficou mais alguns minutos deitado.


Hoje conversamos sobre os desafios de chegar até aqui e o quão importante estava sendo a participação de cada um na travessia. Faltavam poucas milhas para chegarmos, então teríamos que tentar manter o bom humor até o fim. Alexandre foi conferir os e-mails da previsão do tempo e as condições do mar para as próximas horas. Mirella permanecia no leme e pediu ao Alexandre que abrisse mais um pouco a genoa para ganharmos um pouco de velocidade. Eu concordei com ela e reforcei para o Alexandre que 1 nó a mais de velocidade final seria equivalente a, pelo menos 20% de ganho na velocidade do barco. Alexandre concordou e abrimos mais a genoa.


Um banho refrescante antes do almoço

Às 15h15 eu resolvi começar a fazer o almoço, apesar da turma ainda não estar com fome. Como estava muito calor (estamos perto do Caribe...), pensei em fazer uma massa fria com atum, maionese, milho e mostarda de Dijon. Escolhi o farfalle para esse prato. Às 15h55 o prato estava pronto, mas eu pedi a todos que segurássemos um pouco mais a fome para esperar a panela esfriar. Alexandre assumiu o leme e levou o barco a partir de então. Enquanto isso, eu fui tomar o 7 banho da viagem. A ideia era só me refrescar um pouco com água salgada no deck de popa, mas acabei pedindo para a Mirella pegar meu shampoo e o sabonete. Foi uma ótima ideia. A água do mar estava em 26.8 graus Celsius. Após o banho, servi o farfalle para todos, que apreciaram a receita. As refeições a bordo são muito importantes, pois trazem um conforto imediato para o estômago que reflete para todo o corpo. Após o almoço, fui atualizar nosso diário de bordo e tirar uma merecida siesta.



Às 19h, Alexandre avistou um veleiro a umas 8 milhas de distância à boreste. Pensamos que fosse mais um veleiro participando da ARC. Quinze minutos depois, a embarcação fez contato no canal 16 falando em francês. Respondemos em inglês e perguntamos quais eram as intenções dele. O capitão disse que estava indo para a Martinica e se manteria no mesmo rumo que o nosso. Eu levantei às 21h15 para me preparar para a troca de turno e o veleiro continuava ao nosso lado. Ele levaria mais algum tempo para nós ultrapassar. Alexandre ficou no comando do barco até às 22h. Às 22h05 eu assumi.


Continuei navegando com a outra embarcação no visual por 3h40 minutos, quando ela se perdeu no horizonte e eu já não podia mais vê-la. A lua, que estava a sorrir no céu em sua fase crescente, se despediu de mim no firmamento à 1h45 da manhã. Me restou a companhia das estrelas no céu sem nuvens. A temperatura da noite estava tão agradável que eu naveguei só de camiseta por um bom tempo. Já podia sentir na pele o calor do Caribe que nos esperava algumas milhas mais a frente. Coloquei o barco no piloto automático por 20 minutos às 2h da manhã para descansar um pouco e escrever alguns pensamentos no meu diário. Ainda teria mais algumas horas pela frente e rajadas de vento de 28 nós, como previa a meteorologia do dia, para negociar o rumo certo no sentido do nosso destino. Levantei para fazer um xixi na proa do barco e reparei que a esteira de plâncton que nos seguiu até aqui por todo o Atlântico agora era menos intensa. Às 2h35 a tal rajada de 28 nós veio implacável junto com uma nuvem preta logo acima da minha cabeça. Segurei o leme para evitar a orçada, mas foi impossível não fazer um movimento brusco com o barco. Alexandre acordou com a guinada e apareceu com a cabeça no cockpit para saber se estava tudo bem. Disse para ele ficar despreocupado, pois tinha sido apenas uma forte rajada de vento. Ele voltou pra cama e eu segui navegando sem grandes problemas.


Atento na madrugada

Às 3h40, faltando apenas 20 minutos para eu terminar o meu turno, olho para boreste e levo um susto ao ver duas luzes vermelhas, que indicavam claramente que havia uma embarcação para cruzar a nossa proa. Me levantei rapidamente para tentar avaliar a distância que estaríamos um do outro e estimei estarmos a menos de 200 metros de distância. Isso é muito pouco em um oceano! Corri para pegar o rádio portátil para fazer contato ou receber um chamado e, apesar da preferência ser nossa, desviei o nosso curso em 25 graus para boreste, a fim de passar na retaguarda do veleiro não identificado. Quanto mais nos aproximávamos do Caribe, mais encontros desse tipo aconteceriam. Nesse momento, o Alexandre acordou e eu o avisei do tráfego a nossa frente. Monitoramos os dois canais de rádio, o 16 e o 72, que era o combinado para ser utilizado pelos barcos da ARC. Eu acendi a minha lanterna de cabeça, iluminei as nossas velas e joguei a luz na direção do veleiro anônimo. A embarcação cruzou a nossa frente sem fazer qualquer contato. Quando já estávamos enxergando a sua luz de popa, o capitão, com forte sotaque italiano, fez contato no canal 16. Ele nos informou ser um veleiro com 7 pessoas a bordo, que estava vindo de Mindelo, no Cabo Verde. Disse que estava monitorando o nosso tráfego pelo radar. Respondemos que estávamos com contato visual com ele e que seguiríamos a proa 295 graus para Saint Lucia. Ele ainda informou que estavam há 11 dias no mar e que iam para a Martinica. Passado o susto e sem nenhuma outra ameaça a navegação, Alexandre preparou um café para ele e assumiu o leme. Eu esperei a adrenalina baixar e fui deitar para descansar depois de 6 horas consecutivas navegando pela madrugada.


Posição: 14 30 N 052 06 W

0 visualização

© 2019 por Max Fercondini

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • White YouTube Icon
  • White Twitter Icon
  • White Vimeo Icon