• MAX FERCONDINI

Diário de Bordo - Dia 06



Diário de Bordo - Dia 06

(30/11/2018)


Posição: 21 29 N 024 54 W

Milhas navegadas: 142 nm

Milhas para chegar: 2101 nm

Velocidade média para o destino: 5.7 nós


Alexandre navegou amarradão de baixo de um céu estrelado sem igual! De dentro do barco podíamos ouvir sua alegria ao cantar algumas músicas que tocavam na caixa de som do lado de fora.

Fui deitar na cabine de proa, pois, por incrível que pareça, estava balançando menos. Me senti mais confortável lá e pude descansar até às 5h da manhã até que o Alexandre veio me acordar. Ele tentou me chamar, mas como eu não estava na cama da sala, chamou a Mirella para assumir o leme.

Eu levantei e fui ver o que ele precisava. Havia um barco pesqueiro na nossa proa, pescando a umas 700 milhas da costa da África, entre as Canárias e Cabo Verde. Isso se tornou uma ameaça para nós, pois não sabíamos se ele tinha jogado as redes de pesca no nosso caminho. Demos um bordo e mudamos o rumo de 260 para 180 graus e ficamos monitorando seu movimento pelo radar. No momento em que fomos dar o bordo, Mirella chamou a atenção do Alexandre com um cabo que estava preso e nós demos um jaibe inesperado que quase acertou meu rosto. Estávamos todos sentados, com coletes e amarrados na linha de vida. Fora o pequeno susto, nada de grave aconteceu. Alexandre desceu novamente para a mesa de navegação e percebeu que o navio pesqueiro emitia forte sinal no radar e andava em zigue-zague. Nós mantivemos o novo rumo por pelo menos uma hora, com ajuda do motor para nos afastarmos do alvo. Nesse novo rumo, tivemos a impressão de ver uma luz de mastro no horizonte. Ainda estava escuro, por isso não tivemos certeza se era uma estrela ou um outro barco. O radar não identificava nada nessa direção. Quando nos aproximamos mais, tivemos certeza de que era um barco, mas, ao invés dele estar com as luzes de navegação acesas, ele estava somente com a luz de âncora a brilhar no topo do mastro. Não entendemos o por que da luz de âncora estar acesa, pois, ele estava navegando e deveria ter a tricolor light acesa. Só tivemos certeza de que era um outro veleiro quando ele já estava muito próximo. Passamos por ele com menos de 100 metros de distância. Acendemos nossas lanternas de cabeça para iluminar as velas e observamos a lanterna de cabeça, com luz vermelha, de alguém no cockpit da outra embarcação. Ultrapassamos esse tráfego em rumos opostos e depois voltamos a nossa proa para 260 graus, seguindo na retaguarda da mesma.

Mirella foi deitar e o Alexandre, que já estava no leme por umas 10h seguidas, foi fazer um café para nós. Fiquei no leme até clarear o dia e, nos primeiros raios de sol, jogamos a isca ao som de Here Comes the Sun.

Mirella acordou e se juntou a nós. Às 11h20 um dourado um pouco maior do que o do dia anterior fisgou e nós corremos para tirá-lo da água. Com o peixe fora, Alexandre mais uma vez matou e fez a função de limpar. Coloquei novamente o anzol na água e fui preparar o almoço mais cedo. Usei duas cabeças de alho do dia anterior que não chegaram a cozinhar do jeito que eu queria, mais limão, três ovos e outras especiarias para temperar. Mirella sugeriu de acrescentarmos uma abobrinha, que ficou ótima.

Achei que só o peixe para o almoço seria pouco para matar a fome da tripulação. Então preparei um arroz rápido apenas com sal e nós moscada e castanhas picadas que combinou perfeitamente com a proteína do dia. Servi duas cumbucas para meus clientes e assumi o leme enquanto eles se deliciavam com a comida quentinha.



Quando o Alexandre terminou, ele assumiu o leme e eu servi uma porção para mim. Continuamos navegando e como era sexta-feira, tomamos o segundo banho da semana. Me arrumei para descansar um pouco para pegar o turno do início da noite. Mirella gritou às 15:30, pois outro peixe teria fisgado nossa isca, quando eu cheguei, Alexandre segurava a vara que estava nas suas últimas cinco voltas do carretel. O peixe levou quase toda a nossa linha e, quando conseguimos travar, ele arrebentou a isca e foi embora com seu prêmio na boca. Recolhemos a linha e colocamos uma nova isca, dessa vez para pescar dourado.

Continuamos navegando e bateu larica na tripulação. Ainda tínhamos o arroz do almoço, mas a mistura começou com chocolate e banana desidratada. Alexandre ainda achou uns pedaços de peixe perdidos na panela e devorou o que tinha sobrado.

Mirella continuou levando o barco enquanto Alexandre resolveu limpar a geladeira que tinha água podre no fundo. Perdemos pouca coisa da geladeira...

Quando foi 19h, eu assumi o leme. Às 19h30 um grupo de golfinhos se aproximou do barco e navegamos juntos por alguns poucos minutos. Já estava nos últimos raios de sol, por isso quase não os vimos. Alexandre foi dormir logo após os golfinhos e Mirella ficou comigo no cockpit até às 22h. A partir daí fiquei sozinho fazendo meu turno. Quando era 11h eu já estava bocejando de sono e me segurando para não fechar os olhos. Mas tinha algumas boas horas de turno para fazer. Coloquei música, fiquei em pé, cantei... tentei me animar de tudo que foi jeito. Mas o que me fez acordar mesmo foi a tensão da noite escura que não me indicava nenhum ponto fixo de referência para eu seguir. Geralmente, de noite, nos guiamos pelas estrelas, mas, desta vez, o horizonte estava coberto pela poeira do deserto do Saara que era levada pelos ventos até 700 milhas náuticas da Costa da África. Se no céu eu mal conseguia ver as estrelas, na água o brilho do plâncton fluorescente era encantador. Mas eu realmente tinha uma missão difícil pelas próximas horas: manter o rumo 270 graus, sentido oeste.

Eu tentei me basear pela bússola, mas como ela tinha um atraso na leitura, toda hora eu desviava o curso por pelo menos 30 graus para cada lado, conforme os ventos sopravam e faziam com que o barco orçasse. As rajadas eram de 29 nós e a média de vento era de 23 nós. Também não havia um outro veleiro sequer próximo de nós no horizonte para servir de ponto fixo. Tentei então olhar bem para o alto, onde pude ver as Três Marias e outras estrelas com melhor nitidez. Mas era quase impossível me basear em um fixo tão à pino. Era como jogar peão e tentar equilibrar o brinquedo em uma bandeja enquanto se cavalga. A cada nova onda que me pegava pela popa eu perdia novamente o rumo e o barco desestabilizava. Em alguns momentos eu vi a ponta da retranca quase tocar a água com o veleiro adernando. Não sei como os dois não acordaram dentro do barco, mas imagino que o sono para eles não tenha sido dos mais proveitosos.

Com todas essas dificuldades e ficando cada vez mais cansado, só pensava em não tirar o olho das Três Marias, que bem ou mal, estavam me guiando. Quando olho para o horizonte, exatamente no rumo oposto ao que eu estava seguindo, vejo o brilho da lua, entre a poeira do deserto, a nascer. Que alívio ter aquele lindo objeto celeste, de brilho mais intenso que as estrelas, a me servir de referência. Virei de costas para a proa do barco e com apenas uma mão levei o veleiro por umas 2 horas olhando para trás, sem seguir o que o instrumento indicava. Eu só precisei definir exatamente onde eu encaixaria a lua com relação a popa do barco e pude ficar mais tranquilo. Mas meu corpo estava exausto, pois eu já estava navegando há exatas 8h. Nesse momento chamei o Alexandre pela porta. Ele acordou imediatamente e se vestiu para assumir o barco. Quando eu soltei as mãos da roda do leme e me levantei para descer as escadas, minhas pernas quase que não me aguentavam. Me esforcei para permanecer em pé para fazer um café para o meu amigo continuar tocando o barco. Pelo menos agora ele tinha a referência da luz da lua para seguir o rumo para o Caribe.

Fui deitar e, mesmo com o balanço demasiado desconfortável, dormi igual pedra.



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© 2020 por Max Fercondini

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