• MAX FERCONDINI

DA MARTINICA PARA BONAIRE - DIÁRIO 02

Atualizado: 24 de Jul de 2019


Diário de Bordo - DIA 02

(12/06/2019)


Posição: 13°35′N 63°52′W

Distância Total: 520 nm (830 km)

Milhas navegadas: 197 nm (318 km)

Milhas para chegar: 323 nm (512 km)


Após o jantar, iniciei meu turno que deveria se estender até às 5h da manhã. A noite estava especialmente bela com várias nuvens no céu, desenhadas pelo contorno do luar. Na nossa frente, o reflexo da lua se transformou em uma estrada iluminada sobre o mar indicando o caminho para Bonaire. Coloquei música na caixa de som para tocar enquanto me distraia com a natureza selvagem a minha volta. Alexandre voltou ao cockpit e ficou procurando o que fazer, já que não estava com sono. Ele foi à proa do barco para verificar as velas, caçar alguns cabos e se sentou à meia-nau do veleiro para apreciar a navegação noturna. Programei meu celular para tocar a cada 30 minutos com o intuito de me despertar entre um cochilo e outro. Quando foi 1h30 da manhã resolvi passar o turno pro Alexandre que estava bem acordado e aparentemente mais disposto do que eu. Fui deitar, mas deixei claro a ele que podia me chamar a hora que precisasse. Ainda de madrugada eu o vi atacar o resto de farfalle que sobrou na panela do jantar da noite anterior. Passei a noite acordando de tempos em tempos para saber se ele não estava precisando de ajuda.

A popa do veleiro sempre ostentando a bike no meio do mar

Quando deu 5h30 da manhã no relógio, o sol nasceu e eu não tardei mais do que 30 minutos para me arrumar e me juntar aos dois no cockpit. Mirella já estava acordada e seguia navegando com o Alexandre. Fui para a popa do barco e passei um tempo em pé, como se estivesse surfando sobre as ondas. Um atobá se aproximou do barco e ficou voando bem perto do mastro, cuidadosamente avaliando se seria possível pousar no veleiro em movimento para descansar. É muito curioso ver a autonomia e alcance dessas aves. Fiquei pensando qual teria sido sua última escala e qual seria o seu destino final, já que estávamos bem afastados de qualquer pedaço de terra.


Às 8h da manhã, com o vento soprando constantemente, desligamos o motor para economizar combustível. Já tínhamos rodado muito tempo com a assistência da "vela de aço" e agora precisamos navegar somente com a ajuda do vento para termos diesel suficiente até a chegada. Combinamos de passar pelo menos 15 horas só na vela. Ainda faltam mais ou menos 48h para chegarmos. Tempo suficiente para eu terminar de ler o livro que trouxe para a viagem.

Passando as horas durante a noite enquanto o barco navega

Nesse segundo dia de viagem, o mar se apresentava calmo, mas cheio de algas que se soltaram de alguma ilha no Caribe e boiavam ao nosso redor. A corrente que nos carrega de leste para oeste, ajuda a ganharmos 1 nó de velocidade "over ground". Ou seja, se o veleiro faz uma média de 5 nós sobre a água, a indicação correta do deslocamento sobre a superfície da Terra é de 6 nós de velocidade final. Os ventos apertaram um pouco e se mantém acima dos 20 nós. Assim avançamos bem para o destino. A expectativa é chegarmos em Bonaire em mais dois dias e meio.


Às 9h30 resolvi comer alguma coisa, pois já estava algum tempo em jejum. Preparei três ovos cozidos e comi com sal, enquanto a Mirella terminava seu turno. Às 10h trocamos as mãos na roda de leme e eu levei o barco até o meio dia, quando começaria a preparar o almoço. Nesse meio tempo, enquanto eu ainda comandava o barco, avistamos um grupo de uns 8 golfinhos vindo em nossa direção. Os bichinhos saltavam na água até encontrar o barco. Deixei o leme para a Mirella e fui a proa do veleiro observar de mais perto os graciosos animaizinhos. Eles ficaram se exibindo, nadando de um lado para o outro e, vez ou outra, tiravam suas barbatanas de dentro da água. Consegui ouvir a comunicação entre eles. Foi muito especial o encontro, apesar de ter durado pouco mais de 5 minutos. Voltei para o leme e vi pelo través de boreste (lado direito do veleiro) um grande cargueiro se deslocando lentamente no rumo oposto ao nosso. Ainda antes de preparar o almoço eu recolhi a nossa linha de pesca que estava inutilizada por conta dos vários quilos de algas que agarraram enquanto a isca era arrastada. Jamais conseguiríamos pescar algo assim, com tanta "sujeira" camuflando a isca.

Com todas essas distrações, acabei me atrasando para preparar o almoço, que só começou a ser feito às 13h. Resolvi fazer um arroz basmati com carne moída (enlatada), cebola, alho e ervilha. Para dar "liga" e deixar a mistura mais cremosa, coloquei um pouco de maionese. Ficou gostoso, mas não foi nada de extraordinário... O Alexandre acordou às 13h30 bem na hora que a comida ia ser servida. Eu estava com tanto calor depois de cozinhar que assim que terminei de comer me despedi rapidamente dos dois e fui direto pra sala deitar e tirar uma siesta. Dormi das 14h até às 17h e me recuperei bem do mal estar por conta do sol que havia tomado na cabeça durante o meu turno pela manhã.


Fui para a popa do barco com shampoo e sabão e tirei uns 5 baldes de água salgada do mar para me banhar. Foi bem refrescante. Logo que eu terminei, avistei um novo grupo de golfinhos se aproximando do barco. Dessa vez eles eram uns 20 indivíduos e até um bebezinho nadava entre eles. Alexandre, Mirella e eu corremos para a proa do barco e nos sentamos com os pés a quase tocar a água onde os bichinhos brincavam. Foi um lindo entardecer com direito a mais um espetáculo que a natureza nos proporcionou!

Espetáculo da natureza

Às 18h20 começamos a preparar os galões de combustível para reabastecer os tanques do barco. Colocamos mais 60 litros que estavam reservados em 3 galões e deixamos um último galão de 20 litros no paiol para o caso de uma emergência. Dessa maneira conseguimos dimensionar com mais precisão o consumo de diesel do barco. O processo do reabastecimento levou 45 minutos e aconteceu ao mesmo em que o sol se despedia no horizonte.

Às 19h15, para abrir o apetite da tripulação para o jantar, servi um vinho tinto de Bordeaux, que compramos no mercado antes de saírmos da Martinica. Comecei cozinhando umas batatas com manteiga e abri uma lata de cassoule (feijão com algumas carnes de porco e salsicha). A comida quentinha foi servida às 20h20. Jantamos ouvindo música e bebendo vinho debaixo de uma lua linda! Algumas nuvens no céu deixaram a noite ainda mais especial. O Alexandre desligou o motor do barco para jantarmos ao som do mar e seguiremos assim, só na vela, por umas 4 horas. Eu passei o dia inteiro só de sunga e deitei no cockpit para sentir a brisa quente que sopra nas noites de verão no Caribe. Antes de "apagar", peguei meu livro para ler as últimas páginas que faltavam. Meu turno no leme só começou à meia noite, quando ligamos novamente o motor. Ajustei o despertador do meu relógio novamente no esquema de alerta a cada 30 minutos de intervalo para que eu pudesse fazer minha vigilância na madrugada entre um cochilo e outro. A partir de agora teremos o último dia de navegação. Serão as últimas 24 horas antes de chegarmos em Bonaire.

Posição: 13°35′N 63°52′W

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© 2020 por Max Fercondini

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