• MAX FERCONDINI

DA MARTINICA PARA BONAIRE - DIÁRIO 03


Diário de Bordo - DIA 03

(13/06/2019)


Posição: 12°38′N 66°59′W

Distância Total: 520 nm (830 km)

Milhas navegadas: 450 nm (717 km)

Milhas para chegar: 70 nm (113 km)


O dia começou cedo pra mim. Alexandre me chamou às 3h40 da manhã para a troca de turno. Estamos no último trecho da viagem e, em mais ou menos um dia, vamos aportar em Bonaire.

A noite está escura, sem lua, evidencia ainda mais a Via Láctea no céu. A esteira de plâncton fluorescente que o movimento do barco sobre a água provoca também é bem intensa. São pequenos pontinhos de vida na imensidão do mar que estão sempre ali, mesmo que não tenha ninguém para observá-los. Antes do Alexandre ir deitar para descansar, conversamos sobre os detalhes das horas anteriores de navegação. Ele me informou que as velas estão rizadas, ou seja "diminuídas" de tamanho e que não há nenhum outro tráfego reportado no radar em um raio de 48 milhas náuticas. Estamos passando agora por águas que banham a costa da Venezuela. Caracas, capital do país de Maduro, está a 135 milhas (aprox. 250 km) no rumo 180 graus a bombordo do barco. Uma nuvem bem preta tampa as estrelas sobre a Venezuela. Nessa mesma direção, no horizonte, foi possível ver muitos relâmpagos, como se esses fenômenos naturais fossem um sinal de confirmação da instabilidade social e política que a Venezuela vive.

Não estamos conseguindo ter uma informação precisa sobre a nossa localização, pois o GPS começou a falhar e a receber sinal intermitente desde que nos aproximamos do território venezuelano. Não poderia afirmar, mas talvez isso esteja acontecendo por conta dos embargos que o país sul-americano vem sofrendo dos EUA e da Europa. Como o sistema de satélites que permite a leitura das coordenadas geográficas de posicionamento global pertence aos americanos, seria muito factível que os mesmos tenham "desligado a chavinha" que permite ao Maduro de se utilizar desse recurso tático e estratégico.

Ainda antes de saírmos da Martinica, recebemos um alerta de outros velejadores para ficarmos atentos a possibilidade de encontro com piratas nas proximidades com a Venezuela. Se acontecesse algo conosco, não seria a primeira vez que uma embarcação estrangeira seria alvo de pirataria por esses lados. Isso fez com que os turnos de navegação ficassem ainda mais emocionantes. Estamos mantendo o rumo 255 graus. A corrente é bem intensa aqui e nos empurra com força em direção ao nosso destino, a ilha de Bonaire.

GPS indicando as informações da navegação até Bonaire

Às 5h30 da manhã começou a clarear, apesar da manhã ser cinzenta. Mirella acordou e veio me fazer companhia a partir das 6h e passamos um bom tempo conversando sobre a viagem pessoal de cada um de nós no trabalho, na família e nas escolhas que temos feito nos últimos meses e anos. Às 7h20 começou a chover e o Alexandre se apresentou no cockpit para reduzirmos a área vélica (rizar as velas). Com a tempestade tropical venezuelana se aproximando, começamos a registrar ventos mais fortes. Muitos relâmpagos caíam ao nosso redor e foi prudente desligarmos os equipamentos eletrônicos. Rádio VHF, GPS, plotter e piloto automático vieram a baixo e assim levamos o veleiro com as mãos na roda de leme, sem o auxílio do piloto automático, como faziam os navegadores no passado. A chuva e o mau tempo duraram cerca de 40 minutos e, assim que a situação ficou mais calma, Alexandre foi deitar.

Às 8h20, desci para a cozinha para preparar "bacon and eggs" pra mim e para a Mirella. Estávamos com fome, mas com apetite baixo para qualquer outra coisa que não fossem ovos mexidos. Requentei o café que o Alexandre tinha passado na madrugada e peguei meu livro para me distrair pelas próximas horas que passaram voando entre um capítulo e outro e mais uns momentos de cochilo no deck. O céu voltou a limpar às 14h, quando o Alexandre acordou. Ficamos, os três, conversando até às 15h15, quando eu resolvi preparar o almoço. Fiz cuscuz com pimentão, palmito, champignon, milho, carne bovina e cebola. Tudo em conserva, menos a cebola que tínhamos fresca. Almoçamos juntos às 15h50 no cockpit.

Logo após terminarmos de comer, eu levantei para recolher os pratos e vi mais um grupo de golfinhos se aproximar do barco. É incrível ver como a natureza aqui no Caribe é rica! Os golfinhos ficaram nadando na proa do barco por uns 10 minutos, ao mesmo tempo que caçavam peixes voadores a nossa volta. Conforme o cardume de golfinhos se deslocava com as ondas, uma "revoada" de flying fish decolava da superfície do mar. Junto com a caçada dos golfinhos, observamos dourados saltarem da água para se alimentar. Esse espetáculo todo diante dos nossos olhos aconteceu no final da última tarde de navegação que teríamos até chegarmos.

Às 17h30, preparei o meu banho na popa do barco como fiz nos dias anteriores. Quanto mais a gente repete as atividades dentro do barco, mais habituais e corriqueiras elas se tornam. Digo isso, pois, mesmo as tarefas mais simples do cotidiano, passam a ser mais trabalhosas quando estamos embarcados.

Às 18h15, avistamos um grande petroleiro que cruzou a nossa proa a menos de 8 milhas náuticas (aprox. 15 km) de distância, descendo de norte para sul. Fui deitar logo em seguida para me preparar para a nossa chegada de madrugada. Estamos a menos de 70 milhas (130 km) de Bonaire. Percorreremos esse trajeto em mais ou menos 12 horas, se as condições do vento e do mar permanecerem as mesmas.

Tripulação se divertindo na proa do veleiro

Acordei às 21h30 quando o Alexandre preparava os cabos para mudarmos o rumo. Antes navegávamos com vento em popa, mantendo o rumo 255 graus, e agora nossa proa ideal para o sul da ilha de Bonaire é 245 graus, com vento de través (perpendicular ao rumo do veleiro). Para isso ajustamos as velas para boreste (lado direito) e continuamos navegando. O mar cresceu novamente e o vento apertou bastante às 22h. Assim resolvemos baixar a grande e continuar somente com a genoa. A média de vento é de 25 nós, com rajadas que chegam aos 30 nós. Estamos fazendo uma velocidade de 6 e 7 nós (aprox. 13 km/h). Com essas condições nosso estimado é chegar às 6h20 da manhã, exatamente com o nascer do sol.


Às 22h10 eu assumi o leme enquanto o Alexandre foi prepara um prato de cuscuz que sobrou do almoço. Jantamos o "repeteco" e estamos nos dividindo nessas horas finais da travessia entre a Martinica e Bonaire. Já colocamos o espumante para resfriar na geladeira com a expectativa de comemorar a chegada na nova ilha. Ainda não avistamos o nosso destino, mas em mais 2h devemos ter contato visual com o lado leste de Bonaire.

Posição: 12°38′N 66°59′W

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© 2019 por Max Fercondini

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