• MAX FERCONDINI

Diário de Bordo - 14



Diário de Bordo - Dia 14

(08/12/2018)


Posição: 16 03 N 043 06 W

Milhas navegadas: 111 nm

Milhas para chegar: 1040 nm

Velocidade média para o destino: 4.6 nós


Acordei às 3h da manhã com o balanço do barco e não consegui mais dormir. Vi o Alexandre jantando de madrugada a lentilha com linguiça que tinha sobrado do dia anterior e, quando ele voltou para o cockpit, eu esperei mais uns 10 minutos e fui fazer companhia para ele. Ele já estava muito cansado e precisava dormir. Fiz um café para mim e trocamos o turno um pouco mais cedo do que havíamos combinado, às 3h30 da manhã.


A noite continuava linda e não havia uma nuvem sequer no céu. Segui navegando com o veleiro em minhas mãos até umas 6h, quando começou a me bater sono. Coloquei no piloto automático e fui monitorando a direção que seguíamos pelo instrumento que indicava o rumo 274 graus com destino ao Caribe.


Mirella acordou às 8h15 da manhã. Eu estava no meio de uma soneca. Com a sua chegada, eu passei o turno para ela e fui deitar mais confortável na sala. Ela iria pegar fortes ventos pela frente e, com isso, chamou o Alexandre para auxiliá-la. Uma leve chuva caiu sobre o barco, mas nada muito forte. Eu só levantei às 11h da manhã. Subi com torradas de café da manhã para todos e me juntei aos dois. Falamos sobre estarmos cansados da viagem. Entramos na terceira e última semana da travessia e o corpo está sentindo o esforço diário da navegação sem pausa.


Alexandre seguiu levando o barco e, às 14h40 avistamos uma espécie de ararinha branca voando para o sul. Pensamos que este já poderia ser um sinal de proximidade com a terra.

Às 15h25 fomos acometidos por uma grande nuvem de SQUALL que acelerou o barco com rajadas de ventos de 32 nós, além de trazer a tão esperada chuva que esperávamos para lavar o barco. Choveu durante 25 minutos, apenas. Alexandre ficou na roda de leme, propriamente vestido com a roupa impermeável.


De almoço, servi um pouco da lentilha que sobrou do dia anterior para ele almoçar assim que a chuva passou. Ainda pegamos mais algumas boas rajadas de vento de outros SQUALLS pelo caminho até que o vento virou e era necessário dar o jaibe. Exatamente às 19h da tarde (GMT), iniciamos o trabalho das velas. Conseguimos manter o rumo 255 graus com o novo ajuste. E assim esperávamos passar às próximas 24h.


Às 20h desci para a cozinha para preparar um fusilli com molho bechamel. Alexandre deixou a roda de leme e, atendendo ao nosso pedido, foi descansar para poder voltar na madrugada. Enquanto eu cozinhava coloquei um pouco de ópera dos Três Tenores para me inspirar no preparo do jantar. Mirella assumiu o leme e levou o barco com tranquilidade. A cada dia que passa ela está se saindo melhor na condução do veleiro. Alexandre e eu temos nos dedicado a ensinar o que sabemos e ela tem se esforçado para aprender e demonstrar bom desempenho.


No mar os dias passam ao passo do tempo...

O jantar estava pronto às 20h30 e eu abri o armário para pegar as cumbucas para servir a massa. Uma onda inesperada pegou o barco pela popa e adernou o veleiro em um ângulo bem crítico. Um pote com alho em conserva caiu e bateu na borda da panela, enchendo o macarrão com alho e, o pior, com vidro... Que sentimento de frustração eu senti, pois já tinha provado o prato e estava muito bom. Alexandre, que estava tirando uma soneca acordou com o bruto movimento do barco e com o barulho do vidro quebrando. Voltei ao cockpit e contei aos dois o que havia acontecido. Sugeri que talvez eu conseguisse salvar alguma coisa da panela, mas que, se quiséssemos jantar, teríamos que comer com muito cuidado. Famintos, todos concordamos em tentar comer o fusilli com vidro. Então eu servi as porções retirando os maiores pedaços de vidro que eu consegui enxergar (com a luz da lanterna) e nos sentamos para comer. Talvez esse tenha sido o maior risco que corremos em toda a travessia do Atlântico, mas, ao final do jantar, ninguém saiu ferido.


Às 21h55 eu assumi o leme e comecei meu turno que deveria durar umas 5h, até que o Alexandre estivesse descansado. Durante a noite avistei pela proa uma embarcação seguindo o mesmo rumo que o nosso. Às 11h45 me assustei com um peixe voador que pulou na popa do barco. Às 23h46 ele conseguiu se salvar sozinho, voltando pra água sem que eu tivesse que ajudá-lo. Quando deu 1h da manhã, eu coloquei o barco no piloto automático para poder atualizar o diário de bordo. Naveguei com ventos calmos até às 2h, quando algumas rajadas de até 25 nós colocaram um pouco de emoção na navegação.


Alexandre acordou às 3h da manhã como havíamos combinado e foi me encontrar no cockpit. Eu não estava cansado e sabia que, se ele descansasse por pelo menos uma hora a mais, se sentiria melhor no dia seguinte. Combinamos então que ele voltaria às 4h. Continuei navegando e escutando música enquanto admirava o céu estrelado.

Quando deu 4h, Alexandre voltou e trocamos de turno. Ele ligou o motor para dar uma carga nas baterias e eu fui deitar às 4h20.


Falta 1/3 da viagem para chegar! Posição: 16 03 N 043 06 W

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© 2019 por Max Fercondini

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